Com menos de 10 mil habitantes, ruas de terra ainda por asfaltar e um único posto de saúde para atender toda a população, dezenas de pequenas prefeituras paranaenses se transformam em palco de superproduções uma vez por ano. É tempo de festa de aniversário do município, Festa do Peão, Festa da Colheita ou Expô.
O que parece
celebração da cultura local virou um fenômeno fiscal. Levantamentos dos
Tribunais de Contas pelo país mostram o mesmo padrão: cachês de R$ 300 mil, R$
500 mil, até R$ 800 mil por uma noite de show, pagos por municípios onde a
arrecadação própria mal cobre a folha de pagamento.
No Paraná, a conta
chama atenção. Enquanto o Governo do Estado promove o Verão Maior com shows
gratuitos em parceria com as prefeituras do Litoral, no interior a lógica é
outra. A contratação é direta, por inexigibilidade de licitação – brecha
prevista na Nova Lei de Licitações (Lei 14.133/2021) para artista consagrado.
Na prática, a prefeitura escolhe quem quer e paga o que o escritório pede.
O argumento
oficial se repete nos portais de transparência: "fomento ao turismo",
"aquecimento do comércio local" e "lazer para a população".
A planilha, no entanto, conta outra história.
Um show de um nome
nacional do sertanejo ou do forró por R$ 450 mil em uma cidade de 5 mil habitantes
representa um custo per capita de R$ 90,00 por pessoa – só de cachê. O valor
não inclui palco, som, luz, gerador, segurança e hospedagem, que facilmente
dobram a fatura. É o mesmo valor que muitas dessas prefeituras investem em um
ano inteiro em manutenção de estradas rurais ou em medicamentos da farmácia
básica.
É o que o Tribunal
de Contas de Minas Gerais chamou recentemente de "pequenas cidades, custos
gigantes" em auditoria. O estudo apontou municípios de 4 mil habitantes
comprometendo R$ 1,9 milhão em dois anos apenas com shows, um impacto de R$ 454
por habitante. O alerta já chegou ao Paraná. O TCE-PR e o Ministério Público do
Paraná têm orientado gestores a comprovar que o gasto com festa não compromete
os mínimos constitucionais de saúde e educação e que há estudo de retorno
econômico real, não apenas estimativa.
O outro lado da
cortina é a concentração do mercado. Relatório nacional divulgado neste mês de
julho pelo MPA mostrou que, entre 2024 e 2026, apenas 100 bandas receberam,
cada uma, pelo menos R$ 25 milhões de prefeituras e governos estaduais em todo
o Brasil. É uma cadeia que conecta escritórios de artistas, empresas de
eventos, bets e o calendário político – afinal, a festa de 2025 é o palanque de
2026.
Para o morador, o
show é gratuito. Para o orçamento, não é. Enquanto o palco brilha por duas
horas, o eco da conta fica por meses nos balancetes do município.
E a pergunta que
os órgãos de controle começam a fazer é simples: festa é cultura ou é custo?
Quando o brilho do LED apaga, o que sobra para a cidade – além do vídeo no
Instagram da prefeitura – é desenvolvimento ou dívida?

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