O Índice de
Desenvolvimento da Educação Básica foi criado para ser um termômetro honesto:
de um lado, a nota dos alunos no SAEB, de outro, a taxa de aprovação. Juntando
os dois, teríamos um retrato fiel da qualidade. Na teoria, perfeito. Na
prática, tornou-se um jogo de números onde quem manipula o termômetro parece
curar a febre.
E quem manipula
são, em grande parte, as próprias secretarias estaduais e municipais de
educação.
Como funciona a
farsa? De forma simples e cruel:
1. A aprovação automática
disfarçada.
Como o IDEB pune a
reprovação, a ordem velada que desce dos gabinetes é clara: ninguém reprova.
Alunos que mal sabem ler e escrever no 9º ano são empurrados para o ensino
médio. Alunos do 5º ano que não dominam as quatro operações são aprovados por
"progressão continuada". O índice de fluxo vai a 98%, 99%, o IDEB
sobe, o secretário posa para foto com troféu. O aluno, analfabeto funcional, é
quem paga a conta lá na frente.
2. O treinamento para a prova, não a
educação para a vida.
Meses antes do
SAEB, escolas viram cursinhos. Suspende-se arte, ciências, debate. Aplica-se
simulado atrás de simulado apenas de português e matemática no formato exato da
prova. Não se ensina a interpretar o mundo, ensina-se a marcar o gabarito. A
nota sobe, mas é uma nota oca.
3. A maquiagem da lista de alunos.
É a prática mais
perversa e mais comum: no dia da avaliação, os alunos com maior defasagem, os
com deficiência sem suporte, os mais indisciplinados, são orientados a não
comparecer. "Traz atestado", "hoje não precisa vir".
Tira-se da conta justamente quem o sistema já abandonou. O resultado, claro,
melhora.
O que os
secretários estaduais e municipais de educação vendem em Brasília, em congressos
e em propagandas caras na TV local é um Brasil de IDEB 6, 7, 8. O que existe na
sala de aula real é o Brasil onde um jovem conclui o ensino médio sem conseguir
entender um contrato de trabalho, sem conseguir calcular 10% de juros, sem
conseguir escrever um parágrafo com coesão.
O IDEB manipulado
é perfeito para todos, exceto para o aluno. É perfeito para o prefeito que quer
se reeleger como "o prefeito da educação". É perfeito para o
governador que quer mostrar eficiência. É perfeito para o Ministério que quer
apresentar gráficos bonitos para organismos internacionais.
É um pacto de
mediocridade institucionalizado: o sistema finge que ensina, o aluno finge que
aprende, e a secretaria registra que tudo vai muito bem.
Enquanto o foco
for bater meta de índice e não garantir alfabetização real, continuaremos sendo
um país de diplomas sem conhecimento, de estatísticas de primeiro mundo e salas
de aula de quarto mundo. O IDEB, que nasceu para revelar a verdade, hoje é o
principal instrumento para escondê-la.
Joel Vieira - Tribuna da Serra

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